Culturas da Humanidade: Momentos que Viraram Memórias — 02

O Deus de Spinoza

Deus sive Natura

Antes de chegar ao Deus de Spinoza, talvez seja preciso entender um pouco quem foi esse homem que ousou pensá-lo de outra maneira.

Baruch Spinoza nasceu em Amsterdã, em 1632, filho de uma família judaica de origem portuguesa.

Viveu no século XVII, em uma época em que questionar determinadas verdades religiosas podia significar romper com aquilo que havia sido estabelecido como certeza.

Spinoza escolheu pensar.

E talvez tenha sido justamente essa escolha que tornou sua filosofia tão inquietante e fora dos padrões.

Ele não procurava um Deus parecido conosco.

Não imaginava um ser sentado em algum lugar do céu, observando nossas escolhas, distribuindo recompensas e castigos ou interferindo na ordem das coisas conforme nossas necessidades.

Spinoza enxergava Deus de uma maneira muito mais radical.

Para ele, Deus e Natureza não eram realidades separadas.

Deus sive Natura.

Deus, ou seja, Natureza.

E essa ideia me faz parar.

Porque existe uma diferença importante entre dizer que tudo é Deus e dizer que tudo está em Deus.

É aí que aparecem o panteísmo e o panenteísmo.

No panteísmo, Deus não está além da realidade.

Deus é a própria realidade.

No panenteísmo, tudo participa de Deus e existe dentro Dele, mas Deus ultrapassa aquilo que conhecemos como Universo.

Talvez seja mais simples dizer assim:

Panteísmo: tudo é Deus.

Panenteísmo: tudo está em Deus, mas Deus não termina naquilo que conhecemos.

Essa diferença parece pequena quando colocada em poucas palavras, mas muda completamente a imagem que fazemos do divino.

E é por isso que a visão de Spinoza costuma ser aproximada do panteísmo: sua ideia de Deus não exige um ser separado da Natureza.

Não existe um Deus do lado de fora olhando para dentro.

E essa possibilidade, para mim, é profundamente provocadora.

Porque, se for assim, talvez tenhamos passado muito tempo procurando Deus no lugar errado.

Talvez tenhamos olhado para o alto quando deveríamos ter aprendido a olhar para aquilo que existe na nossa frente.

Para uma árvore.

Para o mar.

Para o corpo.

Para o outro.

Para nós mesmos.

Para tudo aquilo que nasce, muda, desaparece e, ainda assim, continua pertencendo ao movimento da existência.

E então surge uma pergunta que me parece muito mais difícil:

se faço parte de tudo isso, quem sou eu?

Talvez eu não seja tão separada do mundo quanto aprendi a acreditar.

Meu corpo veio da natureza.

Minha matéria pertence à natureza.

Minha consciência surgiu dentro dela.

Meus pensamentos são atravessados pelaquilo que vivi.

Meus desejos carregam marcas que nem sempre reconheço.

E muitas das escolhas que considero absolutamente minhas talvez tenham raízes em lugares que desconheço.

Isso também muda a ideia de liberdade.

Talvez ser livre não seja poder fazer qualquer coisa.

Talvez seja começar a perceber o que nos conduz.

Por que desejo aquilo que desejo?

Por que determinadas palavras me ferem?

Por que algumas perdas me transformam mais do que outras?

Quanto daquilo que chamo de “eu” foi realmente escolhido por mim?

Talvez exista liberdade quando começamos a enxergar essas forças em vez de simplesmente obedecê-las.

Não é controlar a vida.

É compreendê-la um pouco melhor.

E talvez isso também mude a maneira como olhamos para a dor.

Nem tudo precisa ter sido enviado por Deus.

Nem toda perda precisa esconder uma mensagem.

Nem todo sofrimento precisa fazer parte de um plano desenhado especialmente para nós.

Às vezes, a vida simplesmente acontece.

E talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de aceitar.

Nós queremos significado porque temos medo do vazio.

Queremos acreditar que existe uma intenção por trás de tudo porque é difícil suportar a possibilidade de que algumas coisas simplesmente façam parte da complexidade de existir.

A morte talvez seja o maior confronto com essa questão.

Sabemos que vamos morrer.

E, mesmo sabendo, passamos a vida tentando construir algo que permaneça.

Amamos.

Criamos.

Guardamos fotografias.

Escrevemos histórias.

Deixamos lembranças.

Talvez porque exista em nós uma resistência profunda à ideia de desaparecer.

Mas o que exatamente desaparece quando morremos?

Nosso corpo?

Nossa memória?

Nossa consciência individual?

A nossa maneira particular de experimentar o mundo?

Talvez sim.

E, ainda assim, aquilo que nos constituiu continua pertencendo à realidade da qual viemos.

A matéria não deixa de existir porque deixou de ter o nosso nome.

Talvez essa ideia não resolva o mistério da morte.

Mas pode mudar a maneira como olhamos para nossa passagem.

Não somos eternos.

Somos passageiros.

E talvez justamente por isso cada experiência carregue uma espécie de preciosidade que não percebemos enquanto estamos vivendo.

Há algo profundamente estranho em estar vivo.

Somos uma pequena parte da natureza que, em algum momento, tornou-se consciente o suficiente para perguntar de onde veio, para onde vai e por que está aqui.

A natureza, através de nós, começou a olhar para si mesma.

Talvez seja essa uma das coisas que mais me fascinam.

Não somos espectadores do Universo.

Somos parte dele.

Não estamos diante do mistério.

Estamos dentro dele.

E talvez seja por isso que eu não consiga mais pensar em Deus apenas como alguém que está acima de nós.

Talvez Deus, para Spinoza, não seja uma pessoa esperando nossas orações.

Talvez seja a própria imensidão daquilo que existe.

Aquilo que não precisa ser convencido a existir.

Aquilo que não precisa escolher entre amar e punir.

Aquilo que simplesmente é.

E isso me leva a outra pergunta:

e se a nossa necessidade de encontrar um sentido pronto for justamente aquilo que nos impede de perceber o sentido que nasce da própria experiência de estar vivo?

Talvez não tenhamos vindo ao mundo com todas as respostas.

Talvez tenhamos vindo com a capacidade de perguntar.

E talvez amadurecer seja aprender a conviver com algumas perguntas sem transformá-las apressadamente em certezas.

Talvez despertar seja isso.

Não encontrar uma resposta definitiva sobre Deus.

Mas perceber que somos pequenos demais para possuir o mistério e grandes o suficiente para contemplá-lo.

Talvez não precisemos compreender o Universo inteiro para reconhecer que pertencemos a ele.

Nem precisamos saber para onde tudo vai para perceber a beleza de estar aqui agora.

E talvez, no fim, a pergunta mais importante não seja:

“Onde está Deus?”

Mas:

“O que muda em mim quando percebo que nunca estive separada do Todo?”

Talvez seja aí que a ideia de Spinoza deixe de ser apenas filosofia.

E se torne uma experiência de consciência.

Porque, enquanto eu procurava Deus como alguém distante, talvez não tivesse percebido que o próprio ato de existir já era uma participação nesse mistério.

Talvez Deus não esteja em algum lugar esperando ser encontrado.

Talvez Ele seja aquilo dentro do qual estamos tentando encontrar a nós mesmos.

E talvez o despertar comece exatamente quando percebemos isso.